"Ele só come arroz, macarrão e frango desfiado." "Ela nem encosta em nada verde." Quem tem uma criança assim conhece o cansaço de pensar em todas as refeições e a vontade de levar comida na bolsa para qualquer festa. Seletividade alimentar é o nome que se dá a esse jeito de comer. Este texto explica o que ela é, por que acontece, quando costuma ser só uma fase e quais sinais pedem uma avaliação.
O que é seletividade alimentar
Uma revisão de estudos sobre o tema descreve o comer seletivo como a falta de vontade de comer alimentos conhecidos ou de provar alimentos novos, junto com preferências fortes por alguns pratos 1. A mesma revisão aponta que não existe uma definição única aceita por todos os pesquisadores, e por isso as estimativas de quantas crianças comem assim variam muito de um estudo para outro 1.
Na prática, a seletividade aparece de formas diferentes:
recusar quase tudo que é novo, às vezes sem nem provar;
aceitar um alimento só de um jeito (só a marca de sempre, só sem molho, só se não encostar em outro);
deixar grupos inteiros de fora, como frutas, legumes ou carnes;
comer bem num dia e quase nada no outro.
Entenda o porquê: por que algumas crianças comem tão pouca variedade
A Sociedade Brasileira de Pediatria explica que recusar alimentos, preferir poucos e restringir grupos pode ser algo passageiro ou aparecer em fases diferentes do crescimento, como a introdução da comida mais sólida, a idade pré-escolar, a escolar e a adolescência 2. Ou seja, uma criança pode comer bem aos dois anos e ficar mais seletiva aos quatro, sem que isso signifique, sozinho, um problema.
Um artigo publicado em 2015 na revista Pediatrics organiza as dificuldades de alimentação em três grandes tipos, que os pais costumam notar: o apetite limitado (come pouco), a ingestão seletiva (come poucos tipos) e o medo de comer 3. Cada um vai de um extremo normal, em que a preocupação é maior que o problema, até situações que precisam de acompanhamento 3. O mesmo artigo lembra que o estilo de quem alimenta também pesa: responsivo, controlador, indulgente ou negligente 3.
Os três tipos de dificuldade e o caminho do leve ao que pede acompanhamento, segundo a revista Pediatrics (2015) 3.
Quando costuma ser fase
Na maior parte das crianças, comer de forma seletiva é uma etapa normal do desenvolvimento, segundo a Academia Americana de Pediatria 4. Costuma ser fase quando:
a criança cresce e ganha peso como esperado nas consultas;
tem energia para brincar e aprender;
aceita ao menos alguns alimentos de cada grupo, mesmo que poucos;
prova, ainda que cuspa, quando o clima da mesa está tranquilo.
Mesmo sendo fase, a variedade importa. A revisão citada acima lembra que a consequência mais comum é uma alimentação com pouca variedade, o que pode preocupar quanto aos nutrientes da dieta 1.
O que ajuda em casa
A boa notícia é que as estratégias com mais respaldo são simples e não custam nada. Elas estão detalhadas no guia criança não come: o que fazer, passo a passo, e se resumem assim:
Mesa sem pressão. Pressionar ou castigar pode fazer a criança antipatizar com alimentos de que ela poderia gostar 4.
Oferecer muitas vezes. Pode ser preciso provar um alimento 10 vezes ou mais antes de aceitar 4. Em um estudo com crianças de 2 a 6 anos, uma provinha diária de um legume rejeitado, durante 14 dias, aumentou o gosto e o consumo dele 5.
Pontes de alimento. Depois que um alimento é aceito, ofereça outro de cor, sabor ou textura parecidos 4.
Comer junto. Refeição em família, sem telas, com um alimento conhecido no prato 4.
Participar do preparo. Escolher, lavar e misturar aproxima a criança da comida 4.
Tem, e na maioria dos casos o caminho é paciência com método. A seletividade leve tende a melhorar com o tempo, com repetição e com uma mesa tranquila. Quando ela é mais intensa, o pediatra pode indicar acompanhamento com outros profissionais, como nutricionista ou fonoaudiólogo, conforme o caso 3.
Referências
Taylor CM, Wernimont SM, Northstone K, Emmett PM. Picky/fussy eating in children: review of definitions, assessment, prevalence and dietary intakes (Appetite, 2015). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nutrologia. Guia prático de alimentação da criança de 0 a 5 anos (versão para famílias) (2022). sbp.com.br
Kerzner B, Milano K, MacLean WC Jr, et al. A practical approach to classifying and managing feeding difficulties (Pediatrics, 2015). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org), Committee on Nutrition. 10 Tips for Parents of Picky Eaters (2018). healthychildren.org
Wardle J, Cooke LJ, Gibson EL, et al. Increasing children's acceptance of vegetables; a randomized trial of parent-led exposure (Appetite, 2003). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
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