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Neurodiversidade

Seletividade alimentar no autismo: por que acontece e como ajudar

Prato com divisórias e alimentos separados enquanto a mão da criança pega uma fatia de maçã.
Neste artigo
  1. Entenda o porquê: o papel dos sentidos na mesa
  2. Por que vale a atenção
  3. Sobre dietas de exclusão
  4. Como ajudar a ampliar o prato

Arroz só se for branco e soltinho. Biscoito só daquela marca. Nada que tenha pedaço, nada que misture. Para muitas famílias de crianças autistas, a alimentação é uma das partes mais difíceis do dia, e "seletividade alimentar autismo" está entre as buscas mais feitas por elas. Este texto reúne o que a pesquisa mostra sobre o tema e o que ajuda a ampliar o prato com respeito ao jeito de cada criança.

Entenda o porquê: o papel dos sentidos na mesa

Crianças autistas são descritas com frequência como seletivas na alimentação, e uma revisão de 25 anos de estudos aponta que diferenças sensoriais, como a sensibilidade maior a estímulos, contribuem para isso 1. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o espectro autista cita, entre as sensibilidades gustativas e olfativas, comer apenas alguns sabores, escolher alimentos pela textura e evitar sabores e cheiros comuns na alimentação das crianças 4.

Os números ajudam a dimensionar. Um estudo que comparou 53 crianças autistas e 58 crianças típicas, de 3 a 11 anos, encontrou que as autistas recusaram 41,7% dos alimentos oferecidos, contra 18,9% das típicas, e tinham um repertório menor: 19,0 alimentos, contra 22,5 2.

O mesmo grupo de pesquisa olhou para o motivo da recusa, segundo os pais 3:

Gráfico dos motivos de recusa alimentar: textura 77,4% em crianças autistas contra 36,2% em crianças típicas.

Motivos de recusa relatados pelos pais: crianças autistas x crianças típicas, de 3 a 11 anos (Hubbard e colegas, 2014) 3.

Motivo da recusa 3Crianças autistasCrianças típicas
Textura ou consistência77,4%36,2%
Sabor ou cheiro49,1%5,2%
Alimentos misturados45,3%25,9%
Marca15,1%1,7%
Formato11,3%1,7%

Fonte: Hubbard e colegas, 2014 3. Para temperatura, alimentos encostando no prato e cor, o estudo não encontrou diferença entre os grupos 3.

Por que vale a atenção

No estudo de 2010, as crianças com repertório alimentar mais curto tinham ingestão insuficiente de um número maior de nutrientes 2. A SBP recomenda a avaliação formal de possíveis carências de micro e macronutrientes, com diário alimentar e exames quando indicado 4. Os autores do estudo sobre recusa defendem que a recusa alimentar seja investigada de rotina em crianças autistas, para evitar que a seletividade deixe a dieta insuficiente 3.

Sobre dietas de exclusão

É comum a família ouvir que tirar glúten ou leite "melhora o autismo". O manual da SBP explica que as evidências para essas dietas são controversas e que não há embasamento na literatura para restringir alimentos de crianças autistas sem motivo, porque essas dietas podem trazer outros prejuízos nutricionais; a exclusão só se justifica com diagnóstico confirmado, como doença celíaca ou alergia alimentar 4. Para uma criança que já come pouca coisa, tirar mais alimentos do prato pode piorar o quadro.

Como ajudar a ampliar o prato

  1. Respeite o ponto de partida. Comece pelos alimentos aceitos e mantenha-os no prato. Retirar o "seguro" costuma gerar mais recusa.
  2. Mude uma coisa de cada vez. Uma nova marca, um novo formato, um novo corte: pequenas variações a partir do que já é aceito, como pontes de alimento 5.
  3. Exposição sem pressão. O alimento novo pode só ficar no prato, ser tocado, cheirado. Em crianças em geral, provar um alimento muitas vezes aumenta a aceitação, e pode ser preciso 10 tentativas ou mais 5 6.
  4. Separe os alimentos, se isso ajuda. Pratos com divisória atendem quem não tolera comida encostando ou misturada.
  5. Ambiente calmo. Menos barulho e menos estímulo na hora de comer. A mesa não deve ser campo de batalha 5.
  6. Equipe. Terapeuta ocupacional (para as questões sensoriais), fonoaudiólogo e nutricionista podem atuar juntos; a SBP indica avaliação de terapeuta ocupacional para as alterações sensoriais 4, e a revisão de 2010 destaca a abordagem interdisciplinar 1.

Se as crises também aparecem na hora das refeições, o guia crise no autismo: como acolher passo a passo pode ajudar. Para sinais de desatenção e agitação, veja TDAH na infância: sinais e avaliação.

Referências

  1. Cermak SA, Curtin C, Bandini LG. Food selectivity and sensory sensitivity in children with autism spectrum disorders (J Am Diet Assoc, 2010). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  2. Bandini LG, Anderson SE, Curtin C, et al. Food selectivity in children with autism spectrum disorders and typically developing children (J Pediatr, 2010). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  3. Hubbard KL, Anderson SE, Curtin C, et al. Food refusal related to characteristics of food in children with ASD (J Acad Nutr Diet, 2014). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  4. Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. Manual de Orientação: Transtorno do Espectro do Autismo (nº 05) (2019). sbp.com.br
  5. American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org), Committee on Nutrition. 10 Tips for Parents of Picky Eaters (2018). healthychildren.org
  6. Wardle J, Cooke LJ, Gibson EL, et al. Increasing children's acceptance of vegetables; a randomized trial of parent-led exposure (Appetite, 2003). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov

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