Guia · Neurodiversidade
Crise no autismo: como acolher a criança, passo a passo
Meltdown e shutdown não são birra. Entenda o que acontece numa crise no autismo e veja 6 passos para acolher a criança antes, durante e depois.
Neurodiversidade

Arroz só se for branco e soltinho. Biscoito só daquela marca. Nada que tenha pedaço, nada que misture. Para muitas famílias de crianças autistas, a alimentação é uma das partes mais difíceis do dia, e "seletividade alimentar autismo" está entre as buscas mais feitas por elas. Este texto reúne o que a pesquisa mostra sobre o tema e o que ajuda a ampliar o prato com respeito ao jeito de cada criança.
Crianças autistas são descritas com frequência como seletivas na alimentação, e uma revisão de 25 anos de estudos aponta que diferenças sensoriais, como a sensibilidade maior a estímulos, contribuem para isso 1. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o espectro autista cita, entre as sensibilidades gustativas e olfativas, comer apenas alguns sabores, escolher alimentos pela textura e evitar sabores e cheiros comuns na alimentação das crianças 4.
Os números ajudam a dimensionar. Um estudo que comparou 53 crianças autistas e 58 crianças típicas, de 3 a 11 anos, encontrou que as autistas recusaram 41,7% dos alimentos oferecidos, contra 18,9% das típicas, e tinham um repertório menor: 19,0 alimentos, contra 22,5 2.
O mesmo grupo de pesquisa olhou para o motivo da recusa, segundo os pais 3:
Motivos de recusa relatados pelos pais: crianças autistas x crianças típicas, de 3 a 11 anos (Hubbard e colegas, 2014) 3.
| Motivo da recusa 3 | Crianças autistas | Crianças típicas |
|---|---|---|
| Textura ou consistência | 77,4% | 36,2% |
| Sabor ou cheiro | 49,1% | 5,2% |
| Alimentos misturados | 45,3% | 25,9% |
| Marca | 15,1% | 1,7% |
| Formato | 11,3% | 1,7% |
Fonte: Hubbard e colegas, 2014 3. Para temperatura, alimentos encostando no prato e cor, o estudo não encontrou diferença entre os grupos 3.
No estudo de 2010, as crianças com repertório alimentar mais curto tinham ingestão insuficiente de um número maior de nutrientes 2. A SBP recomenda a avaliação formal de possíveis carências de micro e macronutrientes, com diário alimentar e exames quando indicado 4. Os autores do estudo sobre recusa defendem que a recusa alimentar seja investigada de rotina em crianças autistas, para evitar que a seletividade deixe a dieta insuficiente 3.
É comum a família ouvir que tirar glúten ou leite "melhora o autismo". O manual da SBP explica que as evidências para essas dietas são controversas e que não há embasamento na literatura para restringir alimentos de crianças autistas sem motivo, porque essas dietas podem trazer outros prejuízos nutricionais; a exclusão só se justifica com diagnóstico confirmado, como doença celíaca ou alergia alimentar 4. Para uma criança que já come pouca coisa, tirar mais alimentos do prato pode piorar o quadro.
Se as crises também aparecem na hora das refeições, o guia crise no autismo: como acolher passo a passo pode ajudar. Para sinais de desatenção e agitação, veja TDAH na infância: sinais e avaliação.
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